• Cristiano Moreira

A letra ilumina a escuridão, mas não minimiza as dores.

Sobre Não arranquemos vermes de mim de Anderson Bernardes

Ed. Oito e meio: 2019, 125 p.




A imagem segundo a qual, a letra, cuja tinta negra, provoca um tipo de alumbramento naquele que lê é bem conhecida. O próprio substantivo alumbramento é um termo caro a todo leitor de Manuel Bandeira e se este leitor tomar o livro de estreia de Anderson Bernardes perceberá a procura dessa iluminação pela personagem narradora do romance. O alumbramento no poema de Bandeira recupera, no entanto, uma lembrança ditosa, uma atmosfera cuja alvura assemelha-se ao brilho das estrelas, a brancura das espumas marinhas e à imagem do corpo de mulher nua alçado à grandeza dos elementos de uma grande descoberta.

As imagens desveladas pelas letras que narram a história de Não arranquem os vermes de mim, romance de estreia de Anderson Bernardes, apresentam aquilo que sucede à narradora em certa “noite mais escura”. A narradora incógnita inicia sua história justamente pela noite limiar e extrema e o que a levaria até o momento limite, em que gira e brinca com uma arma de fogo, brinca com a ideia de ingestão de medicamentos, joga com a vida como costumava jogar no bingo da igreja, um hábito que acompanha ao longo do relato desde a infância.

A morte ronda a vida da personagem que tem como momento fundador da existência um desenlace. Sua mãe fecha os olhos no momento em que ela abre os seus. Cresce portanto, ao lado do pai na marcenaria. As referências à Silvia Plath não funcionam apenas com ornamentos narrativos antes, como herdeira e ordenadora de uma sucessão de acontecimentos da vida de uma mulher simples, filha de dona de casa e de um marceneiro, uma alma pura sonhadora.

A vida da protagonista é circunscrita a marcenaria do pai, a igreja e a uma única amizade. Isolamento parecia ser o fio que alinhavava suas vidas. A amiga, negra e filha de mãe solteira enfrentava na pequena cidade de Dois rios os olhares enviesados comuns em cidades interioranas. Ambas encontraram na outra a possibilidade de uma partilha, vivam juntas nos bingos, na escola, na limpeza da casa.

O romance tangencia em suas malhas os problemas do preconceito, da submissão estrutural da educação feminina e do sigilo a que os desejos devem sem submetidos. Trata também do assédio como ocorre com a protagonista vítima da investida de um dos muitos e rotativos ajudantes da marcenaria que se aproveita da saída do pai para uma consulta na cidade vizinha.

A estabilidade emocional da narradora e profissional da marcenaria parece chegar quando da contratação de um novo ajudante. Este se empenha em fazer um bom trabalho. Reservado e trabalhador ganha a confiança da família e os olhares da narradora sem nome e da sua avó que via no jovem o futuro para a neta e tratava de maquinar os meios para juntar o casal. Assim o fez deixando-os juntos em um das viagens do pai para consultas médicas na cidade vizinha.

Apesar da aparente timidez do funcionário o casamento acontece depois de um tempo. Outro tempo se passa e o corpo da protagonista reclama a atenção do marido. O tempo passa e a tristeza passa a habitar a vida conjugal. Como outra provação para a jovem narradora, sua avó e seu pai e o marido se envolvem em um acidente de transito na volta de mais uma consulta, justo aquela em que seu marido os acompanhava. Havia dois mortos no acidente e a narradora temia seu desejo de preferir o pai ao marido morto. Perde assim o pai e a avó ficando só com o marido.

A partir deste momento a narrativa ganha outros movimentos e vêm à tona reais temperamentos e comportamentos daqueles que a rodeiam. Comportamentos fortuitos do marido, novo ajudante que vivia sem camisa na marcenaria e o silêncio da amiga que passa também a trabalhar na marcenaria que passava por um momento financeiro bom.

A noite mais escura (expressão repetida diversas vezes ao longo do livro) é a noite das revelações, noite em que dentro da escuridão uma luz acende e a faz enxergar a verdadeira face daqueles que a rodeavam. Esta noite é a tormenta que arruína e coloca-a diante da situação limite que o leitor encontra na abertura do romance. A cena do último bingo é excelente e dá a tensão da transfiguração da realidade da narradora.

Do ponto de vista narrativo o romance possui um bom ritmo e bom enredo. A estratégia usada para esconder a narradora sob um quase anonimato não é uma invenção. O escritor norte americano Paul Auster utiliza desta estratégia em alguns livros como O invisível, Osman Lins faz algo semelhante em A rainha dos Cárceres da Grécia (1976). De forma alguma é demérito do autor o uso da estratégia, pois o enredo possui sua particularidade e como dito anteriormente um bom enlace ficcional.

A este respeito, o exercício da ficção é muito bem realizado neste romance que foi finalista do Premio SESC de 2018. A nota do editor no prólogo e epílogo nos quais sustenta os meios pelos quais o autor escolhe deixar a fatia para o leitor que irá se infiltrar nas possibilidades (algumas impossíveis) de destinos da narradora. Não arranquem os vermes de mim faz jus a epígrafe do livro extraída de Hannah Arendt e conseguimos com autor e narrador atravessar essa história desditosa.

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